As férias chegavam e as malas apareciam no corredor no meio da noite. Meus pais diziam que já era manhã, mas as estrelas pareciam não concordar. Ou o sol havia perdido a hora, sei lá. O porta malas num passe de mágica virava cama. Onde é que meus pais colocavam o banco traseiro do carro, afinal? Sem questionar nem bocejar, eu colocava meu moletom favorito sobre o pijama e deixava claro para o meu irmão o espaço em que cada um poderia se deitar. Os cachorros choravam e latiam mas a gente fingia não ouvir. Era melhor assim. E ali, deitada, vendo as luzinhas passarem pela janela eu dormia ao som da fita cassete de música sertaneja que minha mãe guardava no porta-luvas durante todo o ano, mas só tirava nesta ocasião. Meu pai me acordava para avisar todas as vezes em que passávamos por alguma cidade, grande ou pequena. Minha mãe me acordava sempre que a gente parava porque ela queria fazer xixi. E meu irmão me acordava sempre que, dormindo, colocava o braço em cima da minha cabeça. Entre um pão de queijo e outro, eu perguntava se já estávamos chegando. Mas, na verdade, eu não me importava com o destino, o que me importava era apenas a partida. E ela ficava cada vez mais para trás. Conforme o dia ia passando, o calor ia entrando no carro e as roupas saindo do corpo. As janelas iam se abrindo, e o verde das plantações iam ocupando o horizonte. "Quando você dorme o tempo passa mais rápido." Mas tenho para mim que, quando se é criança, ele passava voando. "Já chegamos." Sempre que ouvia esta frase eu me lembrava de que partir era bom, mas chegar era bom também. Chegar tinha cheiro de folhas queimadas, de café fresco e de biscoito de polvilho. A gente ia entrando, empurrando o portão, colocando as coisas no chão e alongando as pernas. Mas ela não vinha nos ver. Ela ficava sentada na cadeira de tecido colorido, no cantinho da cozinha, perto da porta. Ela não andava direito, sabe? Tinha alguma coisa a ver com aquele morrinho nas costas dela. Seus passinhos eram lentos e tinham como ajudante um rodo de puxar água. Ela devia puxar muita coisa mesmo, porque seus passos eram arrastados, como os de alguém que faz muita força e pensa em desistir no meio do caminho. E mesmo percorrendo uma grande distância para estar perto dela, a gente ainda parecia muito longe, no tempo, na vida, no amor. Dia e noite a gente se cruzava, mas nunca se encontrava de fato. Eu mostrava minhas roupas novas, contava piadas e inventava mil histórias, mas era como se ela ouvisse sem escutar, como me olhasse sem me ver, como se estivesse lá, mas com o coração em outro lugar. Apesar disso, na gaveta da penteadeira, cheia de vidrinhos de perfume vazios, ela guardava todas as minhas cartas, as cartas para a "vó Tê", que não sabia ler, mas sabia que, do meu jeito, eu a amava.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
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