terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Procura-se.

Estou sentada neste banco faz quinze minutos e tenho certeza de que tem um arbusto se mexendo atrás de mim. Uma. Duas. Duas vezes ele se mexeu. Mas seja o que for eu não vou dar atenção. Um. Dois. Não, eu não vou lá ver o que é. Não tenho nada a ver com isso. Não estou vendo nada. Vou ler meu livro e... caraca! Mexeu de novo. Ninguém aqui vai lá ver o que é? Pelo amor de Deus, não sou a única pessoa neste parque às três da tarde. Umdois. Agora foi mais rápido, hein? Acho que mexeu mil vezes mais rápido. Ou estou ficando doida? É só um arbusto sendo balançado pelo vento. Se passar algum funcionário do parque por aqui, vou mandar ele dar uma olhada. Ih, olha lá, já parou de mexer. Um. E. Dois. É, parar não parou, mas ficou mais lento. Tá bom, vou fechar esse livro e observar mais um pouquinho. Acho que parou. Parou de vez. Parou mesmo. Mas o que será que aconteceu, hein? Parou por quê? Essas coisas só acontecem comigo mesmo. Vou lá olhar. Sei que não deveria. É, não devo. Mas não posso ir para casa sem saber o que me prendeu aqui nos últimos vinte minutos. Olhando daqui não dá pra ver nada. Vou esperar essa mulher que está fazendo caminhada passar por aqui e vou até lá dar uma espiada. Só pra ela não achar que sou uma doida entrando no meio do mato. Só pra ter certeza de que não era nada e eu estou exagerando. E, é claro que não pode ser nada. Um. Mexeu. Dois. Mexeu de novo. Mexeu, eu vi! Tenho certeza que mexeu. Devia ter gravado com o celular. Vou lá, chega dessa perda de tempo. Ei, o que é isso? Parece um... não, não pode ser. Acho que já vi em um livro ou algo assim. Só pode ser. Mas quem deixou isso aqui? O que eu faço agora? Eu não devia ter sido tão curiosa. Só porque eu achei virei tipo a dona disso aqui? Será que eu coloco de volta lá onde eu o achei? Mas e se ninguém o achar e ele morrer? Bom, não é problema meu... Mas, já sei. Acho que tem uma echarpe aqui na minha bolsa. Tava aqui. Tava aqui. Achei! Parece que vai dar, mas tenho que pegar com j-e-i-t-i-n-h-o. Tá, peguei. Ai que coisa estranha! Ele mexe mesmo, parece pulsar. Não sei como ele estava mexendo um arbusto tão grande. Acho que estava pulsando mais forte por causa do medo e agora ficou calmo e... até parece meio bonitinho olhando bem. Nunca achei que fosse encontrar um coração assim, de forma tão inesperada! Mas, e agora? Eu não quero e não preciso de um desses. Ainda mais assim, tão indefeso. O cérebro que adotei no ano passado atrás iria matá-lo se eu colocasse os dois juntos lá em casa. Vou... simplesmente... colocá-lo em cima... desse banco. Pronto, assim. Vou deixá-lo aqui para que a próxima pessoa a passar possa lhe dar tudo que eu não tenho. Eu simplesmente não sou a pessoa certa para você, entende? Mas, eu nunca vou me esquecer deste momento. Continue batendo, pulsando, vivendo. Um dia, alguém que lhe queira de verdade vai te encontrar. E sua vida será linda, meu querido. O problema não é você, sou eu. Adeus.

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