Estou sentada neste banco faz quinze minutos e tenho certeza
de que tem um arbusto se mexendo atrás de mim. Uma. Duas. Duas vezes ele se
mexeu. Mas seja o que for eu não vou dar atenção. Um. Dois. Não, eu não vou lá
ver o que é. Não tenho nada a ver com isso. Não estou vendo nada. Vou ler meu
livro e... caraca! Mexeu de novo. Ninguém aqui vai lá ver o que é? Pelo amor de
Deus, não sou a única pessoa neste parque às três da tarde. Umdois. Agora foi
mais rápido, hein? Acho que mexeu mil vezes mais rápido. Ou estou ficando doida?
É só um arbusto sendo balançado pelo vento. Se passar algum funcionário do
parque por aqui, vou mandar ele dar uma olhada. Ih, olha lá, já parou de mexer.
Um. E. Dois. É, parar não parou, mas ficou mais lento. Tá bom, vou fechar esse
livro e observar mais um pouquinho. Acho que parou. Parou de vez. Parou mesmo.
Mas o que será que aconteceu, hein? Parou por quê? Essas coisas só acontecem
comigo mesmo. Vou lá olhar. Sei que não deveria. É, não devo. Mas não posso ir
para casa sem saber o que me prendeu aqui nos últimos vinte minutos. Olhando
daqui não dá pra ver nada. Vou esperar essa mulher que está fazendo caminhada
passar por aqui e vou até lá dar uma espiada. Só pra ela não achar que sou uma
doida entrando no meio do mato. Só pra ter certeza de que não era nada e eu
estou exagerando. E, é claro que não pode ser nada. Um. Mexeu. Dois. Mexeu de
novo. Mexeu, eu vi! Tenho certeza que mexeu. Devia ter gravado com o celular.
Vou lá, chega dessa perda de tempo. Ei, o que é isso? Parece um... não, não
pode ser. Acho que já vi em um livro ou algo assim. Só pode ser. Mas quem
deixou isso aqui? O que eu faço agora? Eu não devia ter sido tão curiosa. Só
porque eu achei virei tipo a dona disso aqui? Será que eu coloco de volta lá
onde eu o achei? Mas e se ninguém o achar e ele morrer? Bom, não é problema
meu... Mas, já sei. Acho que tem uma echarpe aqui na minha bolsa. Tava aqui.
Tava aqui. Achei! Parece que vai dar, mas tenho que pegar com j-e-i-t-i-n-h-o.
Tá, peguei. Ai que coisa estranha! Ele mexe mesmo, parece pulsar. Não sei como
ele estava mexendo um arbusto tão grande. Acho que estava pulsando mais forte
por causa do medo e agora ficou calmo e... até parece meio bonitinho olhando
bem. Nunca achei que fosse encontrar um coração assim, de forma tão inesperada!
Mas, e agora? Eu não quero e não preciso de um desses. Ainda mais assim, tão
indefeso. O cérebro que adotei no ano passado atrás iria matá-lo se eu colocasse os
dois juntos lá em casa. Vou... simplesmente... colocá-lo em cima... desse banco.
Pronto, assim. Vou deixá-lo aqui para que a próxima pessoa a passar possa lhe
dar tudo que eu não tenho. Eu simplesmente não sou a pessoa certa para você,
entende? Mas, eu nunca vou me esquecer deste momento. Continue batendo, pulsando, vivendo. Um dia, alguém que lhe queira de verdade vai te encontrar. E sua vida será linda, meu querido. O problema não é você, sou eu. Adeus.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
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