Desço do
metrô com as pernas bambas. Confiro meu relógio e me surpreendo ao ver que
estou adianta pela primeira vez em muito tempo. Caminho alguns metros e avisto
a fachada repleta de espelhos, refletindo o céu azul pincelado por algumas nuvens ralas. É
como se o inferno estivesse fantasiado de paraíso. Passo por uma das muitas
portas de entrada e um calafrio percorre meu corpo, arrepiando os pelos do meu
braço. “Não entre aí, vire-se e saia correndo enquanto pode” disse meu coração
em batuques descompassados. Respiro fundo e aperto o crachá em minhas mãos: não há
o que fazer. Passo pela catraca sob os olhos vigilantes de um funcionário e não
recebo resposta ao lhe desejar um bom dia. “Bom dia pra quem?” ele parece ter
pensado. De fato, tal voto se parecia mais com uma piada de mal gosto. Sigo as
placas que me indicam o andar subterrâneo e desço as escadas sentindo que fico,
a cada degrau, mais distantes de tudo aquilo com o qual eu sempre sonhei. A
porta bege na parede cinzenta é meu destino final. O leitor pede que eu coloque
minha digital no vidro engordurado e, na terceira tentativa, a luz verde acende,
como se eu agora fosse livre para seguir em frente. “É justamente o oposto de
liberdade que me espera lá dentro”, concluiu meu cérebro ainda atordoado. Reconheço
onde devo entrar pois a porta range, balançada pelo vento, como se lamentasse em gemidos o meu destino. Espio para dentro e posso ver todos aqueles seres, inexpressivos,
com olhos fixos nas dezenas de telas empoeiradas. Sinto então a poeira dos
móveis e máquinas invadir minhas narinas e desejo que o ar volte a circular em
meus pulmões. O ar é nitidamente pesado e sujo e a luz entra pelas janelas
sujas que se encontram fechadas, mesmo que o ar condicionado não funcione há
muito tempo. Os cliques desesperados e as teclas agredidas com violência são o
único som do local. Avisto minha cadeira com o estofado manchado e deixo que
meu corpo desabe sobre ela, sentindo que cada vértebra da minha coluna reclama
da posição desconfortável causada pela espuma gasta do assento. Olho para o
relógio e sinto que ele me desafia. “Dez. Tic. Horas. Tac. Dez. Horas. Dez
horas. Dezoras”. E segundo após segundo eu o encaro, como se dele dependesse a
minha própria vida. Segundo após segundo eu me desvaio em uma poça de
inseguranças, medos e decepções. Não há nada a ser feito, nada a ser dito, nada
a ser considerado. Este é o fim. A luz deixa de entrar pelas janelas, os sons
ficam ainda mais abafados lá fora, tudo está estranhamente fora do lugar, mesmo
que nada tenha sido mexido. Mas a verdade é que eu estou fora de lugar, do meu
lugar. “Eu é que não deveria estar aqui”, escrevo na tela em branco. E continuo escrevendo, escrevendo e escrevendo para me
alimentar de cada letra. Mas choro ao ver que linha após linha, ponto após
ponto, tudo é mal julgado e rapidamente jogado fora, como se de nada servisse. Vejo todo o meu
eu longe daquilo que era meu. Sem dar por mim, olho pela janela e invejo uma
pomba voando livre do lado de fora. Então tomo uma decisão: deixo meu corpo
onde está e voo com ela, rumo ao infinito. A partir de hoje, decido, meu corpo
que chegue no horário e faça todo o trabalho. E então, quando ele estiver no
portão de saída, eu voltarei a preenchê-lo com minha alma livre e sonhadora para
juntos voltarmos ao local de onde nunca deveríamos ter saído: os braços do meu
amor.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
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