Desde criança Laura sofre de um estado de culpa crônico. É uma espécie de sensação de culpa que atinge as pessoas naturalmente desastradas e esquecidas quando são surpreendidas por uma perda.
Com Laura, o quadro começou ainda criança quando ela chegava em casa e se dava conta de que havia esquecido os potinhos da lancheira em algum lugar do pátio na hora do recreio. Sua mãe também não colaborava: comprava os melhores potinhos que uma criança poderia ter e isso com certeza, não ajudava no processo de aceitação da perda.
Quando Laura se dava conta de que havia perdido algo, uma culpa terrível amolecia suas pernas, disparava seu coração e lhe causava uma ânsia incontrolável. E, hoje, já adulta, Laura ainda não aprendeu a lidar com esse sentimento, muito menos deixou de perder as coisas.
Não importa se perdeu a hora, se perdeu a vez, se perdeu a chance de ficar calada ou a oportunidade de comer menos na hora do almoço, Laura só tem uma certeza: hora ou outra a culpa vai lhe consumir.
Certo dia, enquanto se torturava entre a culpa de ter comido uma sobremesa e de ter deletado uma música que não lhe agradava muito, Laura recebeu um telefonema.
Foi nesse telefonema que Laura percebeu que a culpa é o pior arrependimento que existe, porque ela havia acabado de perder alguém que amava.
A culpa não era de Laura que seu avô tivesse ficado doente, tampouco que tivesse falecido. Mas era culpa dela não ter dito que o amava quando teve chance, nem mesmo de ter agradecido por tudo que ele havia feito por ela.
A culpa que Laura sentiu era maior do que ter perdido o potinho no recreio, o caderno na faculdade, ou a hora para aquela festa que ela esperou meses para acontecer. E foi então que ela entendeu que não tinha perdido todas essas coisas: ela tinha ganhado.
Laura ganhou um potinho lindo que pode usar por longos meses, um caderno que lhe ajudou a passar na prova de Geografia e um namorado que conheceu na porta da festa que acabou não entrando por causa do atraso. E, enquanto se despedia, Laura agradeceu por ter ganhado o melhor avô do mundo e relembrou com carinho e lágrimas de saudade todos os momentos que passaram juntos.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
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Lindo este post! Me identifico com Laurinha, e é bom pensar que, vez ou outra, o destino nos leva em uma outra direção....
ResponderExcluirBjos da Quel