quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Para presente

Ninguém conhece uma receita para viver, amar ou ser feliz eternamente. As vezes a gente só quer pensar no futuro e remoer o passado.

É quando o presente chega e te dá um tapa na cara, daqueles que deixa a marquinha dos dedos. Sabe, foi exatamente assim que aconteceu.

A senhora do lenço azul acordava cedo para preparar o café todo santo dia, mesmo que santo não fosse. Fazia tudo em silêncio, arrastando os chinelos gastos.

Quando abria a boca não havia previsão de que ela voltasse a se fechar. Seu discurso era direto, reto e chato, arremessado com as panquecas na direção do pobre Doutor Chico.

Se a natureza não havia feito dele um homem surdo, dera-lhe a capacidade de se parecer com uma pedra. E tudo que entrava por um ouvido saia pelo outro: intocável, inodoro, inouvido.

Era senhor distinto, aposentado e cansado. Pensava em seus amores, suas perdas e a saudade que só crescia, mesmo que fosse de tudo aquilo que não fizera ou mesmo daquilo que jamais iria conhecer. Um mundo lá fora girava sem parar enquanto ele, parado em sua cadeira manca, quase que por inércia, ia se arrastando pelos anos com o peso de sua consciência.

Por ironia, a pedra em seu sapato era a mulher que jamais cansava de falar. E reclamava daquilo que estava por vir, do que havia de passar e dos sonhos que nunca chegavam a se realizar. O tempo para ela era contado, irritado e apressado. E nada chegava, nem mesmo uma carta.

Até que um dia, para ser exato uma manhã ensolarada de domingo, ao som de passarinhos a casa veio abaixo. De longe, na estrada eles lamentaram de mãos dadas.

Ele viu lembranças soterradas, ela avistou sonhos destruidos. E em um canto, sob uma tabua cheia de poeira estava o presente que jamais receberam: aquele momento.

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