quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O bilhete

Ele olhou para as mãos que tremiam como aquela mesa com os pés tortos da casa da tia Lili. Podia sentir uma gotinha de suor escorrendo por sua testa em direção ao olho esquerdo. Aquilo causava uma ardência incômoda.
Tinha certeza que aquela era a sala certa. Havia comparado mais de dez vezes a plaquinha acima da porta com o bilhete que sua mãe lhe entregou. Lembrou-se de cada palavra sobre não perder o tal papel importante nem enfiá-lo em meio a bagunça de sua mochila.
Já conseguia se imaginar do outro lado da porta, tropeçando em frente a todos aqueles olhares desconhecidos que lhe analisavam meticulosamente. Procuravam de defeitos e falhas que poderiam - e iriam - ser usados contra ele em brincadeirinhas de mal gosto na hora do recreio.
Era sempre a mesma coisa: a tremedeira que lhe percorria o corpo magro, a ânsia que lhe corroia o estômago, o coração disparado e a vontade de sair correndo para enfiar a cabeça em um buraco bem fundo, como um avestruz.
Depois, vinha a raiva. Se seus pais não tivessem se separado nada disso estaria acontecendo. Ele ainda estudaria naquela escolinha de bairro em São José e não teria que ser analisado nem julgado por ninguém. Todos saberiam que ele era apenas ele: o garoto da casa amarela ao lado da sorveteria. Agora, veja só, não sabia nem o próprio endereço. Desistiu de tentar decorá-lo depois da quinta mudança.
Há mais de um ano era assim. Sua mãe mudava de emprego e ele mudava de escola. Tendo que enfrentar mais uma vez aquela gotinha de suor no olho esquerdo. Como aquilo incomodava!
Mas agora não era hora de pensar sobre o fracasso que havia sido o casamento de seus pais. Tinha que reunir toda a coragem que lhe restava e abrir logo aquela fechadura, antes que sua própria vida se tornasse um verdadeiro fracasso.
Pois é. Tinha. Mas acabou sentado na escada lá fora até que sua mãe aparecer para buscá-lo. Passando desapercebido por todas aquelas crianças que saiam das salas amplas e arejadas com seus cadernos agarrados ao peito.
Quando a mãe lhe abriu a porta do carro animada, perguntando sobre o primeiro dia de aula ele chorou. Como se fosse um bebê, ele chorou. Reuniu toda aquela coragem e conseguiu simplesmente chorar. Não disse nada além de alguns soluços.
No dia seguinte a mãe lhe deixou na porta da escola. O garoto parou em frente aquela porta e olhou para as mãos. O bilhete parecida diferente desta vez.
Ele lembrou-se das palavras de sua mãe que, assim como no dia anterior, lhe diziam para não enfiar aquele papel na mochila e, mais uma vez, frisaram o quanto se tratava de algo muito importante. As palavras haviam soado ainda mais firmes desta vez.
Ele abriu as dobras delicadamente feitas por sua mãe e leu as palavras escritas com a caneta dourada comprada especialmente para os cartões de natal da família. Guardou o bilhete no bolso, abriu a porta e entrou na sala.
Neste dia o garoto soube que a única porta que ele nunca deveria ter medo de abrir é a do coração. As outra, bem, essas são apenas portas.

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