quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Uma mulher apaixonada

Bianca era uma menina bonita, na flor de seus vinte e poucos anos, com a carreira deslanchando em promoções e elogios de seus superiores. Era do tipo falante, não media suas palavras tampouco o efeito que as mesmas poderiam causar. Usava roupas da moda e exibia um belo corpo. Os homens a cobiçavam e ela os deixava acreditar que poderiam ter alguma chance de laçar seu coração, embora jamais permitisse que tal coisa acontecesse.

Certo dia, porém, Bianca se apaixonou. É ai que a mulher deixa de ser uma simples mulher. Bianca era agora: uma mulher apaixonada.

A partir daquele momento ela estava sujeita a todas os imprevistos, gafes e situações embaraçosas que a vida lhe pudesse causar. E acredite, a vida já havia lhe preparado poucas e boas. Havia agora em seu rosto, um novo sorriso, que ia mais ou menos de uma orelha a outra e, quando Bianca menos percebia, já estava com as bochechas coradas.

A natureza não sabe guardar o segredo de uma mulher apaixonada, ela denuncia aquele segredo íntimo em cada segundo de sua presença. Do dia em que se apaixona em diante, a mulher desaprende a andar, tropeçando mesmo que não esteja de fato andando; desaprende a falar, gaguejando de maneira ridícula e aparentemente perde a memória, esquecendo e confundindo frases, nomes e datas de forma impressionantemente estúpida. É como se a paixão deixasse você de pernas bambas vinte e quatro horas por dia. É como estar drogado vinte e quatro horas por dia, sem que você tenha aceitado consumir essa droga.

Algumas mulheres tendem a comer mais do que de costume, enquanto outras tendem a gastar mais do que ganham. Com Bianca não poderia ser diferente. Se o cara não estava ao seu lado, a caixa de chocolate guardava seu lugar. E entre uns quilinhos a mais e uns centavinhos a menos, Bianca renovou um guarda-roupas com um número a mais no manequim.

Chegou então a fase da coleção. Bianca começou a colecionar conselhos das amigas e fotos do cara. Ela descobriu que toda mulher nasceu para ser detetive, e isso não é uma opção. Investigamos nomes, lugares, pessoas, e continuamos investigando se não encontramos nada que nos desagrade. Tem que haver algo que nos desagrade e vamos encontrá-lo. Mesmo que seja para chorar, se entupir de chocolate, desabafar com a amiga, escrever um poema triste ou simplesmente assistir a uma comédia romântica totalmente clichê e ter dó de si mesma. Mas a gente quer saber.

O que Bianca acabou descobrindo por fontes nada confiáveis, é que o cara estaria em uma festa. Logo, ela aumentou a dívida do cartão, enfrentou a depilação, bateu papo com a manicure, engoliu uma folha de alface e saiu.
Foi para a festa, linda e insegura em seu vestido novo que, por pouco, não revelava a polpinha de sua bunda. E, obviamente, Brianca ficou bêbada.

Sim, nós achamos que as bebidas tem um ingrediente chamado “coragem”. É um ingrediente secreto que as empresas sabiamente colocam na composição e esquecem de escrever no rótulo. A dose indicada para uma mulher apaixonada é alta e pode causa efeitos colaterais indesejáveis. Bianca bem sabe disso, já que depois de passar a festa inteira abraçada com o vaso sanitário saiu de lá tão apaixonada quanto antes e com a aparência de um resto deplorável de ser humano trajando um vestido preto com manchas estranhas e segurando as sandálias, uma em cada mão.

Três anos se passaram e o cara foi transferido. A notícia veio como uma bomba e Bianca lamentou não ter morrido naquele momento. Ela não iria mais gastar dinheiro com roupas novas rezando para encontrar o cara no elevador na hora do almoço, nem sentir aquele frio na barriga quase que insuportável quando ele passasse distraído por sua mesa, nem mesmo ouvir fofocas sobre ele nos corredores ou na fila do bebedouro, enriquecendo assim sua investigação. Não haveria mais o que investigar. Nada mais tinha sentido algum.

Era isso. Bianca tomou uma dose de coragem pura, sem bebida, e foi falar com ele. Ela jamais havia chegado tão perto assim dele. A cada passo sua boca secava mais um pouco. Foi se aproximando e começou a reparar que sua testa dele adentrava de maneira levemente exagerada o cabelo que, em seus pensamentos, era mais cheio de vida. Olhando daquele ângulo ele nem era tão alto assim. Sentiu-se estranha.

O cara olhou para ela e sorriu. Seu sorriso ia aproximadamente de orelha a orelha revelando um dentinho torto na arcada inferior. Seus olhos brilhavam como duas estrelas e ele gaguejou e pigarreou algumas vezes antes de lhe dizer um sonoro: “Olá”. Em seguida acabou esbarrando em uma pilha de papéis, revelando certo nervosismo. Por fim, seu hálito não se parecia com um chiclete de hortelã e sua voz não soou grave como a de um locutor de rádio.

Bianca, então, percebeu um sinal. Tão pequeno como um sopro de ar em uma tempestade. Aquele cara estava apaixonado. Por ela. De uma forma tímida e imprevisível, ele estava apaixonado por ela. Ele a desejava. Talvez cultivasse esse sentimento a anos, antes mesmo que ela tivesse notado sua presença e nunca conseguiu juntar coragem ou bebida suficiente para dizer a Bianca o que sentia.

E ai... bem... ai Bianca achou que aquilo tudo não tinha mais graça. De repente estava tudo tão claro e estranhamente fácil e correspondido.
A chama da paixão que queimava em seu coraçãozinho foi se apagando, apagando, até que ela lhe desejou boa sorte e voltou a ser a velha Bianca de antes.

Daquele dia em diante ela não mais tropeçou, nem mesmo gaguejou. Mas continuou gastando o que não tinha e comendo o que não podia, afinal, ainda era uma mulher.

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