sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Lembranças

Desde que sabiam eram amigos. Nunca brigaram ou descordaram de algo. O sol raiva no alto do céu, indicando que a metade do dia já havia passado. Luiza chegou correndo no quarto de André e logo foi entrando. André se assustou, soltou um grito e, só então, viu Luiza junto a porta, com a respiração ofegante e a face branca como papel. Ela tentava, juro que tentava, mas não conseguia proferir uma só palavra. Ele a abraçou. Ela tinha o olhar fixo, penetrante, penetrando janela afora. Ele correu para o parapeito daquela janela pequena com o vidro esfumaçado e viu Maira no quintal, junto a cerejeira onde costumavam fazer pic-nic nas tardes de primavera. Ela estava imóvel. Segurava um objeto que, daquela distância ele não podia reconhecer. André se viu com medo, um medo como jamais sentira antes. Uma lágrima brotou em seu olho, mas ele a secou antes mesmo que pudesse tocar seu cilho inferior. Ele deveria ser forte. Era o homem da casa. Luiza sempre fora muito exagerada, emotiva. Maira estava sempre preparando alguma gracinha. De certo estavam lhe pregando uma peça. Mas André, ele sim, era a razão. E desta vez, não seria diferente. Ele tinha que ter o controle, ele tinha que protegê-las. Saiu correndo até a escada principal e desceu corrimão abaixo escorregando a bunda. Abriu a porta da frente da casa mais rápido do que nunca. Quando colocou o primeiro pé na soleira da porta, os primeiros raios de sol tocaram seus olhos e ele mal pode enxergar Maira. Saiu correndo em direção a cerejeira e encontrou apenas um bilhete que dizia: “Não nos esqueça”. André, então deu um grito e se viu, deitado em sua cama, acordando de um pesadelo. A muito tempo não sonhava com aquelas meninas com quem passara boa parte de sua infância. Havia se esquecido delas. Havia se esquecido da beleza e sensibilidade de Luiza. Nunca mais pensara naquela risada alegre e despreocupada de Maira. Ele era agora, velho. Esquecera a emoção, esquecera a alegria. Era um solitário e triste dono de sua razão. Sem nenhuma razão para viver.

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